Eu sou Orixá Exu! Parte 01


Por
Alexandre Cumino

Sou um poder primordial, ancestral e divino. Sou anterior a tudo e a todos. 

Não sirvo aos fracos, apenas aos fortes, fortes de caráter, fortes em retidão,
fortes no amor, fortes na guerra, fortes na fé, fortes em suas virtudes, fortes
em virtuosismo, fortes em sua ética.

Aos fracos, eu não sirvo, mas os deixo loucos, loucos em sua sede de poder,
loucos em suas arrogâncias, loucos em sua soberba, loucos em seu ego, loucos em
suas paixões e apegos desenfreados por tudo que é material. 

São fracos todos aqueles que não têm a coragem de assumir sua personalidade;
são fracos todos aqueles que sustentam falsos moralismos na tentativa de
esconder seus desejos mais baixos; são fracos todos aqueles que vivem
diminuindo aos outros na tentativa de se sentirem melhores ou maiores; são
fracos os que só encontram diversão na ironia que agride; são fracos todos
aqueles que, para se sentirem poderosos, querem controlar tudo e todos. Estes
fracos me procuram, estes fracos me perseguem, estes fracos sempre acabam vindo
a mim para me pedir tudo o que não se sentem capazes de realizar por si mesmos.
Estes fracos sempre caem nas armadilhas do destino, se corrompem, se vendem por
ninharias. E não estou falando de vender o corpo e sim daqueles que venderam
suas almas, que têm suas consciências prostituídas, estou falando daqueles que
prostituem seus sonhos, estou falando dos fracos que se cobrem de joias e
perfumes na intenção de disfarçar sua feiura interior e sua podridão tão
inevitavelmente exposta. 

Aos fracos, eu reservo as loucuras consideradas tão normais neste mundo de
valores invertidos. Aos fracos é permitido, por algum tempo, se deliciarem na
mentira de seus egos e jogos de poder, que lhes causam um frenesi fútil e
diminuto. A estes fracos, que considero mortos por não conseguirem viver sua
essência verdadeira, que é também divina como a minha, um dia acompanharei em
suas descidas nas trevas. Não no inferno católico, mas em seu inferno
particular e independente de qualquer religião, em suas trevas interiores que
conduzem aos abismos de suas dores mais profundas. São estes fracos que
preferiram esconder suas dores, que preferiram fingir que não carregam
decepções. São estes fracos que não conseguiram forças para se olhar no
espelho. Então, um dia, eu serei o vosso espelho e não precisarão mais
continuar jogando sua podridão no semelhante, não precisarão mais continuar
apontando o dedo para tudo e para todos, mostrando seus próprios vícios. 

Eu mesmo chegarei cheio de virtudes, eu mesmo chegarei cheio de alegria pela
vida, eu mesmo chegarei com força e virilidade, eu chegarei grande em poder,
chegarei com todas as qualidades que você finge ter e tantas outras que finge
não ter, em sua hipocrisia sem limites. Chegarei exultante em coragem absoluta,
chegarei sem vacilar, chegarei com toda a impetuosidade que os seus medos mais
profundos não lhe permitem ter ou possuir. 

Sou irreverente e é por isso que me divirto com certas situações. Me divirto ao
me mostrar aos falsos moralistas, me divirto quando sentados em cima de sua
podridão ou de cima do castelo de seus egos apontam o dedo e me chamam de
demônio. Me divirto por que sempre que me mostro para estes hipócritas vou
vestido de espelho, vou plasmado e transfigurado com suas sombra, me cubro com
seus vícios e me coloco de frente para eles. Neste momento, eu represento tudo
o que está reprimido em seu ser, lhes ofereço a oportunidade de limpar sua
alma, lhes dou a chance de relaxar um pouco na vida para se despreocupar com
tantas bobagens de um mundo frágil e inconsistente.

Junto de Dionísio, eu lhes ofereço o vinho que inebria os sentidos e lhes
convida a ver a vida com outros olhos. Mas ainda assim a grande maioria acorda
de uma ilusão apenas para cair dentro de outra ilusão, acordam de um sonho
dentro de outro sonho, em que abandonam o ego num sentido mais baixo e assumem
o ego por sentidos mais nobres, mas ainda assim continuam apegados. São homens
apegados nas virtudes. Estes me divertem mais ainda porque acreditam ser
melhores do que os outros, por serem virtuosos, mas se esquecem de que o
virtuosismo é algo muito além disso, este é o falso virtuosismo, o virtuosismo
daqueles que se tornaram orgulhosos de serem virtuosos. São homens apegados ao
desapego, são viciados na autoimagem de virtuosismo, fazem de tudo para
sustentar esta imagem. Muitos são considerados santos, muitos sustentam esta
imagem por uma vida inteira até que um dia vão se deparar com Caronte, o
barqueiro. Um dia passarão pelas portas de Obaluayê, depositarão seus corações
nas mãos de Maat, ao lado de Omulu. Verão que a pena de Oxóssi, empunhada por
Thot, anotou todas as suas ações e que tudo o que importa é quais sentimentos
moveram cada uma de suas ações, e não a ação em si. Descobrirão que cada
situação da vida é uma encruzilhada e que eu estou em todas as encruzilhadas. 

Eu, Exu Orixá, chego com um poder que não pode ser dominado, apenas
compartilhado. Não posso ser controlado, apenas aceito. Não posso ser
manipulado, apenas posso ser agradado. E a única forma de me agradar
verdadeiramente é com suas virtudes. Nada me agrada mais que o virtuosismo
humano, nada me agrada mais que atender a quem me chama para ajudar seu
semelhante. A estes, eu sirvo com amor e satisfação, não faço nada por
obrigação, não trabalho para resgatar dívidas, trabalho por prazer. Sim, é isto
que me move: o desejo e o prazer, e coloco todo o meu poder, minha força e
vitalidade na casa das virtudes.

O virtuoso é sempre alguém de coração tranquilo, pois não alimenta expectativas
e nem espera recompensas. O virtuoso, de fato, é o forte que não necessita de
se autoafirmar. O virtuoso é o forte de fato. O virtuoso é alguém que
simplesmente é o que é e não pretender ser nada além de mais um alguém
realizado consigo mesmo

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